O planejamento de uma grande viagem de moto começa sempre com muitas perguntas, os familiares e amigos querem saber detalhes de sua aventura. Talvez, intimamente, você tenha seus próprios questionamentos: Eu tenho competência para o desafio, será que eu consigo enfrentá-los com coragem, terei sucesso, o que me espera?

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Creio, no entanto, que uma pergunta não pode faltar: O que eu espero dessa viagem?

As provas e superações são postas antes da sua partida, cruzar um continente de um extremo a outro, atravessar toda uma rodovia, todos os continentes. Outros já fizeram então você também é capaz.

Penso que todos os questionamentos e limites pessoais colocados à prova são válidos e importantes, mas algo profundo supera todas as expectativas: a solidão de estar com você mesmo, se encontrar dentro do seu capacete, se conhecer e se suportar, afinal, esse é o grande desafio, a sua viagem.

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Pontos de paradas e objetivos, extremos alcançados, provas que o comparam a outros são só eventos que o trarão de volta a sua normalidade social. A disputa pelo reconhecimento e o pedestal de grande motociclista diferenciado que vence desafios, o transformam, de certa forma em igual a tantos que já foram na sua frente. Entendo, no entanto, que você não é normal, você é um sonhador. Um homem, uma mulher que percebe conquistas nos pequenos detalhes, a cada quilômetro transposto você traça um rumo para um lugar único, a descoberta de quem você é. A conquista é exclusiva, o destino e o trecho percorridos podem ser iguais aos de outros tantos desbravadores que deixaram  passos no caminho antes de você, mas a estrada é sua, só sua, sua maior conquista é o caminho que leva você a estar em paz com a sua inquietude, seu espírito indômito tem uma interpretação única da estrada e essa estrada leva diretamente a um encontro pessoal.

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Um motociclista conhece com profundidade a sua alma e a sua estrada e talvez por isso tenha paciência com os medos e esperanças dos outros. Ele sabe que nada é perfeito, lugar nenhum o brindará com a saciedade eterna, aceitando assim o fato de que a plenitude vem do ato de fazer as pazes com seus próprios defeitos e a aceitação da sua humanidade.

Sua viagem não será perfeita não importando para onde você vá, não existe isso. A perfeição muda com a interpretação de quem a idealiza. A grande vitória vai ser saber lidar com o incontrolável, entender que uma atitude positiva, face as dificuldades, pode ser mais útil em aprendizado do que ter tudo sob controle.

Esse guerreiro motociclista, ao voltar para casa, trará na bagagem mais que fotos de lugares surpreendentes e seu nome no rol dos grandes viajantes, trará no coração e na alma a marca indelével da estrada e de cada pessoa que dividiu o olhar e a emoção.

Com o olhar de um soldado, você descobrirá que a moto foi um vetor para sua maior viagem que é a difícil busca de si mesmo. Você procurou razões para ser feliz pelo valor da conquista e depois de todos os quilômetros percorridos, descobriu sobre a sua moto, o valor das coisas simples.

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De tantas coisa deixadas pelo caminho, uma você não a quer de volta: A presunção de que você sabe tudo e nesse espírito enfim você voltará para casa.

Até a próxima!

Gean Andrade, motociclista de corpo e alma.