Por Gean Andrade

Apesar de ser outono no Brasil, essa é a época das chuvas no Nordeste, a Base Naval de Natal, onde sirvo, fica às margens do Rio Potengi, que é o principal curso de água do Estado do Rio Grande do Norte. A Base da Marinha, construída quase em sua foz, foi importante, quando, em 1942, na segunda guerra mundial, foi instalada aqui, uma base militar dos Estados Unidos. A capital potiguar, como assim é conhecida, foi escolhida por ter uma posição geográfica privilegiada para os aliados, facilitando deslocamentos para África e Europa. A Base, construída na encosta de um morro, tem uma linda visão panorâmica do Rio Potengi; o estuário desse rio é rico em vida e verdes mangues completam esse cartão postal.Gean Andrade_1ºtexto (2)

Apesar de constantes ventos fortes, normalmente, proporcionar conforto no litoral do Rio Grande do Norte, hoje, o calor é intenso, o desnível do terreno não deixa que o vento chegue até o heliponto, onde estou; nada indica que vai chover. Em minha carreira de militar, o guarnecimento de postos de voo é uma de minhas atribuições. Com meus óculos de proteção, olho para o horizonte e não vejo a aeronave; mesmo assim, de longe, se ouve o barulho que anuncia que ela vem se aproximando, toda a atenção está voltada para o perfeito funcionamento da aproximação para o pouso. Em uma longa espera. Minha mente divaga. Após 13 anos de um bom casamento, o divórcio foi inevitável. Minha vida novamente vai mudar. Um anunciado, mas dolorido, segundo divórcio acontecera aos 46 anos. Preciso pensar em como novamente recomeçar. Não vai ser fácil, tudo parece assustador. Todos os meus planos incluíam meu antigo parceiro. Um pequeno sítio visitado pelos netos, uma grande mesa e um grande fogão a lenha, uma viagem de moto planejada para quando a aposentadoria chegasse.  Tudo isso foi sumariamente cancelado. Todo o futuro teria que ser repensado, a solidão bateu novamente em minha porta. Manter a vida em sua rotina e sobreviver me parece, inicialmente, um bom plano.Gean Andrade_1ºtexto (5)

Enquanto o trabalho militar era realizado, no estacionamento, a minha primeira moto, uma 150CC, estava estacionada. Nunca tive moto, apesar de pilotar desde muito cedo.  Confesso que sou garupa profissional.

Minha pequena moto foi comprada por necessidade de economizar e no momento em que era necessário refazer os planos para o futuro. Lembro-me do meu velho sonho de uma viagem de moto, uma expedição para algum lugar distante, em dupla, cada um com sua própria moto. Agora isso está totalmente fora do meu alcance, no meu entender, minha moto é pequena, a experiência é inexistente e não tenho muita habilidade. Parece-me que essa viagem nunca vai acontecer, mas, sentada no chão sujo, com as costas na parede branca do heliponto esperando o pouso do helicóptero, penso que toda essa mudança é só uma indicação de que a vida é finita e que o improvável sempre pode acontecer. Que talvez esperar por um companheiro e um momento oportuno para fazer algo bom, é uma boa desculpa para minhas próprias limitações e medos.

Dia após dia, os helicópteros chegam e partem. O tempo está quente, a grama está baixa e cortada como deve ser, todos vestidos com seus macacões azuis de operação, nem a dureza do trabalho tira o prazer de estarmos juntos. A animação é geral, os planos, as brincadeiras e as piadas são uma constante; afinal, não se vai a lugar nenhum até essa operação acabar. A proximidade entre os que estão todos os dias no mesmo lugar só aumenta. Compartilho meus planos com os companheiros de farda, falo demais e esse era o caminho natural.

Quase todos os presentes no heliponto possuem uma moto pequena no estacionamento. Na minha empolgação e talvez por que a possibilidade de fazer uma viagem longa de moto sozinha ser, para mim, assustadora e o assustador me atrai, o assunto sobre grandes aventuras agora é o meu tema preferido. Argumento com precisão, logo a ideia de viajar de moto parecia boa demais para ser descartada. E os que se dispõem a compartilhar o sonho comigo são muitos.Gean Andrade_1ºtexto (1)

Surge então a sugestão – “O Atacama, o deserto do Atacama no Chile”. Os motivos são vários e me parece inóspito e longe o suficiente. Morando em Natal, eu vou ter que atravessar todo o Brasil, Argentina e Chile para chegar lá. Esse será o meu objetivo, e os amigos vibram com a proposta.

Ao anoitecer, minha cabeça roda a mil por hora. Quem já fez essa viagem provavelmente tem algo a dizer ou já escreveu alguma coisa sobre isso na internet. Tem que ser alguém específico, tem que ser alguém que tenha feito em uma moto pequena como a minha. O meu sonho agora é povoado por pessoas que já venceram desafios de longas viagens de moto. Quando amanhece, tenho muitas dúvidas e uma certeza: Eu vou ser um deles.

Entre pousos e decolagens, o dia se arrasta. A internet do celular é fraca e não é fácil conseguir informações suficientes para saciar a minha curiosidade. Gostaria de dizer que os anos me transformaram em uma pessoa calma e ponderada, mas isso não é verdade. No meio de tantas perdas, tenho um novo objetivo, um novo desafio e isso me alimenta. Olhando para meu notebook, sei que tudo é tão distante e improvável, e me parece utópico. Tem tudo para não passar de um sonho, sonhado demais. Perfeito! Gosto de sonhos que parecem impossíveis.

O mês se inicia ainda sem chuvas, o Nordeste é árido e o sol é inclemente. O curso da vida tende a retomar a sua rotina. Mas, para mim, a rotina nunca foi uma opção. Meus planos de uma viagem de moto continuam e, nos últimos 30 dias, pensei sobre isso o tempo inteiro. E isso me ajudou a sobreviver. Minha personalidade é indômita, eu sei, alio isso a um momento de mudança em minha vida, faço com que os meus desafios pessoais sejam um impulso para voltar à superfície, tenho experiência nisso. O monstro do lago ainda está lá.

Utilizo uma máxima que me ajuda a focar em um objetivo – “ Se você tem um plano de fazer uma viagem, marque uma data”- Crio algo definido, serve pra mim e acredito que para as pessoas que, assim como eu, pensam tudo de uma só vez. Assim me sinto agora, em um turbilhão de pensamentos. Creio ser essa uma boa estratégia para que você mesmo não se sabote com prazos que o deixam livre para desistir. Então, enfim, tenho uma data marcada, 20 de dezembro de 2014, nas férias, Vou voar em meu primeiro voo solitário em minha própria moto. Caramba! Meu coração palpita de ansiedade. O velho oceano que divide o querer e o ser agora banha meus pés – Eu não sei nada sobre viagens de moto – essa é a conclusão mais óbvia a que chego. Um velho amigo indicou alguns sites e por inúmeras noites, os visitei. Tomei notas e devorei informações. Meu computador adormece comigo. Meus sonhos são acalentados pelos vídeos de viajantes motociclistas. Um problema é certo: experiência, não tenho nenhuma! Então, pequenas viagens precisam ser feitas. Minha moto mal chega a 100km por hora, mas, e daí!? Não existe nenhum empecilho em ter uma moto de menor cilindrada, o que importa é a qualidade de quem a conduz: o motociclista. Bom, nestes termos, então, surge outro problema, não sou exatamente uma motociclista, apesar de saber pilotar e ter a minha própria moto. Não tenho habilidade, tampouco experiência suficiente. Falta muito para eu ser considerada assim.Gean Andrade_1ºtexto (3)

Dois meses se passaram e todos os companheiros da Marinha e futuros companheiros de viagem não estão mais interessados em uma viagem que parece só um sonho impossível. Acho que, para alguns, foi só um bom jeito de passar o tempo, alimentar sonhos nas horas vagas. É engraçado como as pessoas desistem facilmente de seus sonhos, ou talvez, nesse caso, não fosse interessante para mais ninguém. Para mim, este era um desafio e não poderia ser esquecido.

É um sonho possível, pois precisa ser. Só há um caminho e ele está iminente. Acredito que só basta continuar andando, não importa a velocidade, vou me manter em movimento, não vou desistir.Gean Andrade_1ºtexto (4)

Gean Andrade – O voo da Coruja, Das Dunas ao Deserto, Cap. 02.