Talvez você não saiba, mas na minha viagem de volta ao mundo de moto a solidão e o medo me oprimiu por quilômetros. Para prosseguir com relativo equilíbrio, eu tentava me manter focada no objetivo que, naquele momento, era o sucesso de conseguir chegar sozinha ao Alaska. Cruzei países antes de perceber o que eu estava fazendo comigo mesma: Com 50 anos, em meio a grande aventura da minha vida, eu estava perdendo tempo. Sim, perdendo tempo, pois o grande plano de viver e aprender tinha sido ofuscado pela necessidade de provar a minha força, a vontade e a vaidade de ser considerada, publicamente, ótima e feliz.

A cada quilômetro crescia no meu peito a solidão; o medo, sem espaço, diminuía. Nessa confusão de sentimentos, explodiu, como uma dor, o desconhecido da estrada, o outro para quem nada significo, onde minha vida somente passa de moto. Pode parecer outro tipo de solidão, um outro motivo para ter medo mas, para mim, não foi. Aprendi a lidar com o movimento, a preencher o vazio com momentos efêmeros, valorizar para logo em seguida continuar. Essa adaptação foi, lentamente, se aperfeiçoando e me deixando mais leve conforme eu cruzava o mundo, comecei a reclamar menos e me responsabilizar mais. Eu tinha aprendido a sobreviver mas também a compartilhar com quem eu não conhecia e isso preencheu os espaços vazios que eu tinha mas, nessa catarse, aprendi que posso errar, me sentir frágil, que é justamente aí que influencio pessoas, pessoas que, como eu, tem medo. Talvez a minha vaidade ainda esteja aqui, assumo a minha humanidade mas com a digna pretensão de fazer a diferença.

Vivemos um momento difícil da nossa história, uma crise econômica, uma pandemia, a morte com o barulho solitário de um respirador. Há uma tendência natural em encontrar culpados, responsáveis. O isolamento social, esse necessário, se confunde com indiferença. Uma invasão de sentimentos ruins, que te arremessa direto para a escura e fértil raiva.

Creio ser o outro, com seus motivos, riscos e vírus, a resposta. É o sentimento de troca que, mesmo a quilômetros de distância, faz você se sentir parte de algo maior e explode como a necessidade que, inevitavelmente, compartilhamos: Sobreviver.