Por Antônio Bizzo

Saímos de Brasília (DF) em 02/02/2018 rumo à Chapada Diamantina, na Bahia, num grupo com 5 motocicletas. Eu e o Neisser de BMW GSA 1200, o Cláudio de GS 1200, Henrique de Triumph Explorer 1200 e o Ivan de Multistrada 1200. Fizemos um roteiro entrando pelo sul da Chapada (Rio de Contas) e saindo pelo Norte (Lençóis), voltando a Brasilia pelo estado do Tocantins e de quebra passando pela região do Parque Estadual do Terra Ronca e cruzando a Chapada dos Veadeiros, esses últimos em Goiás.

Saímos do DF pela BR 020 rumo norte, porém tomando depois a BR 349 rumo a Correntina. Estrada mais simples essa última, mas boa e bem vazia, basicamente cruzando grandes plantações e com poucos postos de gasolina. Mas nada dos caminhões que atormentam na BR 020. Seguimos até Bom Jesus da Lapa, às margens do (ainda) imponente rio São Francisco. Entramos na cidade para visitar o Santuário de Pedra, encravado primitivamente em uma gruta enorme, descoberta em 1691 por um monge católico desbravador.

 Santuário de Pedra, Bom Jesus da Lapa (BA)

Santuário de Pedra, Bom Jesus da Lapa (BA)

 Santuario de Pedra, Bom Jesus da Lapa (BA)

Santuario de Pedra, Bom Jesus da Lapa (BA)

Sob um calor de 36 graus a partir daí seguimos pela BR 430 até Igaporã, de onde as estradas passaram a ser “com emoção”. Aí saímos da BR e pegamos a BA 156 rumo norte para Caturama. Apesar de nos mapas aparecer como asfaltada, esqueça. Terra, buraco, cascalhos, pequenos trechos com algum sinal de asfalto. Bota aí uns 80 km desse jeito. Mas, visual bonito, região bucólica e terreno ondulado, com serras à vista.

Por enquanto as motos que estavam com pneus normais ainda não sentiam muito o caminho (sentiriam mais à frente), mas os Heidenau K-60 (50/50) na minha GSA e na GS já começaram a dar o ar da graça por aí. Lá na frente tomamos a BA 152 rumo leste, já em melhores condições e com bonito traçado, terreno mais ondulado e passando por pequenas cidades e uma ou outra fazendinha. Mas o final do dia se aproximava e não queríamos rodar à noite. De Caturama a Rio de Contas, nosso objetivo nesse 1o. dia, eram uns 80 km de uma estrada bem interessante, sendo os últimos 30 km espetaculares. Fim de tarde limpo, um lindo pôr do sol e ao final uma serra daquelas com curvas de cotovelo, que não imaginávamos haver na Bahia! Chegamos por volta das 19 hs a Rio de Contas, após rodar quase 950 km nesse dia.Foto: Rio de Contas (BA), à noite na chegada

Rio de contas

Rio de Contas (BA), à noite na chegada

Ir na Chapada Diamantina e não ir a Rio de Contas, posso dizer agora, é perder uma grande oportunidade de conhecer uma das mais pitorescas e bem mantidas cidades coloniais do Brasil e seguramente da região da Chapada. Pouca gente sabe, mas foi a primeira cidade planejada do Brasil, ainda no século 18, com o auge da exploração do ouro. A parte mais ao norte da Chapada Diamantina veio a ser, muitas décadas depois, a região dos diamantes, por isso o nome. Passamos a noite ali, perambulando pelo centrinho, comendo e bebendo bem.

Rio de Contas (BA)

Rio de Contas (BA)

Nem só de andar de moto vive o homem! Rio de Contas (BA).

Rio de Contas BA

Rio de Contas – BA

Rio de Contas, saída para Jussiape.

No dia seguinte, após muita conversa com os locais, seguimos para Mucugê por um caminho alternativo, pelas lindas serras da região. Tomamos o asfalto na direção de Jussiape e Abairá, mas nos metemos em estradinhas de terra (uns 30 km), com trechos pitorescos, povoados, alguma areia (K-60 I Love You!). Não vou nem tentar descrever aqui o percurso, pois é meio confuso. Pergunte em Rio de Contas, mas ache quem conheça. Uma dica é comprar ali o “mapa rodoviário e turístico da Bahia 2013” em uma lojinha de souvenirs perto da praça da Igreja. O proprietário conhece bem a região, te explica tudo, pois organiza passeios pelas serras em um velho Land Rover. Esse mapa vai ajudar bastante para rodar dentro da Chapada.

Rio de Contas, saída para Jussiape

Rio de Contas, saída para Jussiape

Vídeo: Estrada de terra pela serra, rumo a Mucugê (BA)

Parte plana da estrada de terra rumo a Mucugê (BA)

Parte plana da estrada de terra rumo a Mucugê (BA)

Pousamos em Mucugê 3 noites e a partir daí fizemos vários passeios às atrações próximas (e não tão próximas).  Poço Azul, Poço Encantado e Cachoeira do Buracão, O Buracão é um lugar imperdível. A maior atração da Chapada. E tanto o trecho de asfalto como os 30 km de terra são show em termos de visual. O off tem trechos de bom cascalho, vários trechos com areia, morros, curvas, vales. Enfim, de tudo um pouco. Contrate um guia em Abicoara, pois caso contrário vai perder a viagem (só com guia para entrar). Como estávamos de moto, contratamos um que tinha moto também. Após uns 2 ou 3 tombos dos menos experientes nos areais do caminho chegamos ao Buracão. E prepare-se para uma caminhada pesada, mas lindíssima de quase 1 hora até lá. Mas vale cada metro. Não deixe de ir de nenhuma maneira!

Se estiver entre Poço Encantado e Poço Azul, vá nesse último, pois você pode fazer flutuação nele! Show de bola. Mas fomos nos dois e nos divertimos nas estradas de terra. Para o Poço Azul você ainda tem a chance de, se quiser, atravessar um rio bem larguinho (Rio Paraguaçu), mas raso, para chegar na propriedade, que está 400 metros. Como o fundo era meio arenoso/lamacento em um trecho, um guia que estava por ali nos aconselhou a não atravessar com as motos. Não fosse ele, alguns de nós certamente teríamos aproveitado oportunidade. Enfim, deixamos as motos sob uma árvore ali, com as roupas penduradas nos galhos e passamos a pé em roupa de banho.

Fomos também a Igatu, a “cidade de pedra”. Só o caminho já valeria, não fosse a vila de uns 500 habitantes no alto de uma serra ser também tão interessante. Não deixe de ver as ruínas dos antigos garimpeiros de diamante e ouvir as estórias (ou histórias) dos locais. As subidas e descidas de pedra são bem íngremes para chegar lá. Com chuva, só carros 4 x 4 (e os valentes) sobem as pirambeiras!  De moto, é bem divertido e ainda dá uma pequena adrenalina! Aproveitamos e almoçamos por lá, mas o Henrique resolveu perder a chave da moto bem ali. Mas como o cara era bem fortão e grande, concluímos que não dava para encarar as subidas com ele na garupa. Ficou um de nós lá enquanto fomos a Mucugê buscar a chave reserva (leve sempre com você nas viagens!).

Região de Igatu

Região de Igatu, a cidade de pedra.

Henrique, no inicio da “estrada de pedra”, rumo a Igatu.

Henrique, no inicio da “estrada de pedra”, rumo a Igatu.

No dia seguinte, por questões profissionais, o Ivan e o Henrique retornaram para Brasilia a partir de Mucugê, ficando apenas os 3 riders de BMW. Apesar de sentirmos a falta dos amigos, partimos para Lençóis via BA 142, passando antes por Andaraí para conhecer (nada demais). Consideramos pegar uma suposta estradinha entre Andaraí e Lençóis. Não se iluda. É trilha, muitas vezes seguindo pelo leito do largo e assoreado (pelo garimpo) rio Lençóis, que une as duas cidades. Big trail como as nossas teriam muita dificuldade.

Cervejada em Mucugê, de onde Henrique e Ivan tiveram que retornar (alguém precisa trabalhar!)

Cervejada em Mucugê, de onde Henrique e Ivan tiveram que retornar (alguém precisa trabalhar!)

Paradinha em Andaraí, agora apenas os 3 Beemers!

Paradinha em Andaraí, agora apenas os 3 Beemers!

Soubemos tudo isso após chegarmos a Lençois e nos hospedarmos na Pousada das Árvores, do motociclista, trilheiro. Aventureiro e garimpeiro Paulo Cesar. Conhece tudo e mais um pouco da Chapada, além de nos receber como amigos. Com Quadriciclos dele fizemos um off espetacular de 4 horas basicamente no leito desse rio, rumo a Andaraí, até um garimpo abandonado (que era dele!).

Cervejada em Mucugê, de onde Henrique e Ivan tiveram que retornar (alguém precisa trabalhar!)

Cervejada em Mucugê, de onde Henrique e Ivan tiveram que retornar (alguém precisa trabalhar!)

Lençois é uma cidade interessante, com vida noturna muito animada. Ficamos vários dias aí usando como base para ir ao Morro do Pai Inácio (vista impagável!), à gruta poço da Pratinha (30 km de off tranquilo, passando por plantações de café), à gruta da Lapa Doce (a caminho da Pratinha, maior gruta do Brasil com 17 km mapeados).

Vista do alto do Morro do Pai Inácio

Vista do alto do Morro do Pai Inácio

Fomos também em um passeio de todo um dia a Vila do Capão, fazer o trekking da Cachoeira da Fumaça, a 2a. maior do Brasil, com 385 metros. Considerando que você não visitará a 1ª (El Dorado, no Amazonas, com 400 metros), não deixe de ir. Mas o trekking é pesado, com 2 horas de caminhada só de ida e muita subida. Até o ponto de partida, além do trecho de asfalto, temos uns 30 km de off bastante razoáveis, mas a depender das chuvas tem duas descidas/subidas que podem complicar bastante se você estiver com motos grandes e pneus de rua. Choveu na véspera e uma das BMW estava com pneu on road  (Anakee3) e acabamos indo de carro com uma agência de turismo. Apesar de que no final, baita arrependimento, pois vimos que daria para ter ido “tranquilo”.

Inicio da trilha da Cachoeira da Fumaça, já com a Vila do Capão vista lá em baixo (ponto de partida)

Inicio da trilha da Cachoeira da Fumaça, já com a Vila do Capão vista lá em baixo (ponto de partida)

Ao final, rodamos toda a Chapada e visitamos as principais atrações, fazendo uns 250 km de off no total com as motos, sem grandes inconvenientes.

Dos 5 pilotos, 2 tinham quase ou nenhuma experiencia no off road e ainda assim, com algum sofrimento em alguns trechos e menor velocidade, todos encararam o desafio.

No retorno a Brasilia a partir de Lençóis, viemos pela BR 252 até Luiz Eduardo Magalhaes, com muito caminhão, chuva pesada e acidentes. Porém ao invés de descermos pela BR 020 rumo a Goiás, seguimos direto e entramos no Tocantins, rumo a Taguatinga (TO). Esse trecho da BR 252 era de terra até há pouco tempo e achamos que ainda era (Google maps ainda mostra). Agora está um asfalto de primeira.

Chapada_Diaman_Bizzo (106)

Após Luiz Eduardo Magalhães (BA), seguindo em frente rumo ao Tocantins em estrada recém asfaltada (iriamos na de terra mesmo)

Entrada de Tocantins

Na divisa de Bahia e Tocantins margeamos a lindíssima e enorme Serra Mestre e Geral de Goiás, que mais abaixo forma o Parque Estadual do Terra Ronca, com o maior complexo de grutas e cavernas da América do Sul. Muita mata e morros escarpados a perder de vista, que nos fazia imaginar as belezas escondidas por ali. No Tocantins seguimos para o sul pela TO-110 rumo a Aurora do Tocantins, Novo Alegre e entrando em Goiás por Campos Belos. Estrada muito legal no TO, vazia, muita vegetação nativa, fazendinhas pequenas, curvas, animais cruzando, mas com muitos buracos em alguns trechos. Mas nada que as GS e GSA 1200 não tirassem de letra.

Serra Mestre e Geral, que segue por muitas dezenas de KM dividindo Goiás e Tocantins

Serra Mestre e Geral, que segue por muitas dezenas de KM dividindo Goiás e Tocantins

Entrando em Goiás somem os buracos, mas a estrada continua sem movimento e perfeita para as motos, sempre com a Serra Geral à nossa esquerda. Passamos por Monte Alegre, Teresinha de Goiás, pelo acesso ao Parque do Terra Ronca até Alto Paraiso, onde cruzamos a Chapada dos Veadeiros. Viemos com chuva em alguns trechos e como já chegamos em Alto Paraíso com chuva fina por volta das 18 hrs e com baixa visibilidade decidimos pernoitar em Alto Paraiso. Aproveitamos para comemorar com um bom jantar o quase fim da viagem. No dia seguinte os 250 km restantes foram feitos em ritmo tranquilo, com lindos visuais da região da Chapada dos Veadeiros.

Elas esperando pacientemente seus pilotos terminarem o jantar de fim de viagem em Alto Paraíso (GO), na Chapada dos Veadeiros

Elas esperando pacientemente seus pilotos terminarem o jantar de fim de viagem em Alto Paraíso (GO), na Chapada dos Veadeiros

No total foram 2.800 km rodados na viagem, sendo 1.160 km o trajeto de volta. Conhecemos uma região do Brasil que poucos brasileiros conhecem bem. Por exemplo, constatamos que uma parte importante dos visitantes na Chapada Diamantina eram estrangeiros, de muitas nacionalidades. É uma pena que troquemos tão frequentemente lugares como esse por destinos domésticos ou internacionais tão batidos, comerciais e despersonalizados.

E tem tudo a ver, explorar essas nossas belezas naturais pilotando uma motocicleta!

 

Antônio Bizzo