A herança e o fora de estrada em 1970

A herança que recolocou Carlão no mundo das motos, a primeira prova de cross e os novos amigos da imprensa

Vasculhar a história já é por si só um delicioso passeio de motocicleta através dos olhos e das memórias de nossos antepassados. Ter a oportunidade de ler e relembrar as aventuras de seu próprio pai anos depois da sua partida é um privilégio, sem dúvida. Dividir isso com quem gosta de história e de motos nas páginas da MOTOCICLISMO então, nem se fala. Melhor enxugar as lágrimas. Na segunda parte das Memórias de Motocicletas de Carlão Coachman, um pouco sobre o movimento do fora de estrada brasileiro na década de 1970 (cross, trail e trial) na visão de um de seus protagonistas.

Memórias de motocicletas – parte 2

por Carlão Coachman (texto inédito escrito entre 2004 e 2006)

“Em 1971 fiquei sabendo que haveria uma prova de motocross na Cidade Universitária, e claro que fui assistir. A pista foi montada onde hoje se encontra a caixa-d’água, com desenho bem simples e dois pulos acompanhando taludes do terreno. Uma multidão acompanhou as manobras de Walter Tucano Barchi, Carlos Taques Bittencourt e Denisio Casarini. As motos usadas eram Yamaha de trilha e umas poucas motos especiais de cross. Depois dessa prova inaugural, ocorreu outra no “Portal”, na rodovia Castelo Branco, próximo a São Roque, SP. Esta até foi televisionada e teve como destaque Paulé Salvalaggio.

Mas foi no fim de 1973, que minha esposa, Lídia, recebeu uma pequena herança e decidiu me dar uma moto de presente. Saí à procura de uma moto de trial e encontrei, na Rua Pinheiros, uma loja de compressores de propriedade de um espanhol chamado Ramirez, que tinha em exposição uma Bultaco Lobito 125 e uma Montesa Cota 247 pela qual me interessei. O espanhol, no entanto, não quis me vender a Montesa, pois disse que a moto era muito violenta e que eu deveria começar com a Bultaco, mais fraquinha.
Não fi z negócio e comecei a procurar outra moto. Em abril de 1974, encontrei a moto que acabei comprando na Motonasa, uma Yamaha DT 250-A.

Cópia da nota fiscal da Yamaha DT 250 adquirida por Carlão Coachman em 1974, graças a uma herança de sua esposa Lidia.

Retirei a moto num sábado perto de uma hora da tarde e fui para casa. Após o almoço, inspeccionando a moto, verifiquei que faltava uma peça que fixava o eixo dianteiro por baixo. Na segunda-feira voltei à loja e, para minha surpresa, o supervisor disse que eu perdera a peça e que não fora falha da montagem, algo impossível de acontecer em uma robusta moto de trail em apenas quatro ou cinco quilômetros (marcados no hodômetro), e não houve acordo. Finalmente, com a minha esposa conversando com o Sr. Zanatta, dono da loja, consegui que fizessem uma peça nova e a colocassem no lugar. A partir daí comecei nas minhas primeiras trilhas.

Lídia, esposa de Carlão, recebeu uma pequena herança e resolveu lhe dar uma moto de presente: Yamaha DT 250-A, comprada na Motonasa. Foto Acervo Carlão Coachman / Motostory

Quando aparecia no Café Concerto no Ibirapuera, os outros olhavam minha moto com espanto e não raro me faziam perguntas do tipo: “Que moto esquisita, para que serve?” Como tive problemas com a Motonasa, procurei uma oficina que pudesse fazer a manutenção e descobri a Moto Feitiça, na atual Av. Juscelino Kubitschek, que era do “Feitiça”, membro da Federação Paulista de Motociclismo, e do Paulo Sodré. Ao lado havia a oficina do Mauro Tomasini, cujo filho Henrique (o conhecido Riquinho) hoje milita com seu filho na motovelocidade. Durante um tempo, a vontade de ter uma moto de trial ficou adormecida. Na época, ainda havia muitas trilhas na região do Morumbi e eu as percorria aos sábados.

Quando me cansava parava na várzea, na Av. Marginal, nas proximidades da ponte Cidade Jardim, onde havia campos de futebol e um bar que servia cervejas muito geladas e um excelente sanduíche de linguiça.*

Carlão Coachman na pista de cross que existia onde hoje se vê o Parque do Povo, em São Paulo, próximo à ponte Cidade Jardim. Lá ele conheceu Carlos Ourique Scateninha. Foto Acervo Família Coachman / Motostory

Frequentando este local, conheci o músico Julio Camargo Carone, outro amante das trilhas e que possuía uma DT 125E 1974 e uma AT1 250 1973. Começamos a fazer trilhas juntos. Logo o Julio me apresentou o Carlos Taques Bittencourt, que tinha uma Puch 125 e uma Suzuki 380 e havia participado daquela primeira prova de cross na Cidade Universitária… e a turma ia crescendo. Conheci um vizinho, o Roberto Capobianco, que tinha uma DT 250 1972 e com quem cheguei a fazer trilhas na Granja Viana em companhia de meu primo João Roberto Escobar que também tinha uma DT 250. Nessa época conheci o Philippe Estanislau do Amaral, que depois se dedicaria ao trial e aos quads, em que hoje é uma referência. Não tardou e o Carlos Bittencourt, o famoso “Bitencas”, nos apresentou o Emilio Camanzi, que tinha uma Suzuki 185 e na época era o editor da revista Quatro Rodas e que, por falta de companhia, às vezes levava sua moto para Belo Horizonte para fazer trilhas com o pessoal de lá.

Julio Camargo Carone e sua AT1 250 com Carlos “Bitenca” Bittencourt e sua Puch 125. Foto acervo Carlão Coachman / Motostory.

Passamos então a fazer trilhas juntos e como eu era o mais assíduo, o grupo acabou conhecido como Turma do Carlão. (Nota do Editor: Carlão também tinha um enorme senso de localização e não se perdia nunca. Muitas vezes pilotos mais rápidos passavam por ele na trilha e acabavam esperando para saberem o caminho correto a seguir.) Nessa época conheci o jornalista Luiz Costa Filho, então da revista Duas Rodas, e nos tornamos amigos. O Luiz também fazia trilha conosco de vez em quando. Através dele conheci o Josias Silveira, que na época comprou uma Harley-Davidson Motovi 250 de trilha e depois de reformá-la saiu conosco para andar no Morumbi. Por ser novato, se atrapalhou ao passar em uma poça profunda e caiu batendo o ombro num mourão de cerca, o que resultou numa luxação. Depois dessa péssima experiência, o Josias desistiu do fora de estrada.

Turma do Carlão em 1979 na região de Alphaville, São Paulo: Julio Carone, Carlão, Sinésio Fernandes, Emilio Camanzi, Bitencas. Agachados: Luiz Costa Filho, Charles Marzanasco Filho e o “Japa” da Editora Abril. Foto Claudio Laranjeira / Motostory

Em 1976, assisti a um filme chamado “Duas Ovelhas Negras” em que um detetive utiliza uma Montesa de trial para perseguir bandidos e aquilo reacendeu a vontade de possuir uma trialeira (título original Freebie and the bean. 1974). Assim, munido de cartões de visita fui para região chamada esquina do veneno em São Paulo, e visitei muitas lojas de motos procurando uma Montesa e deixando meu cartão de visitas. Depois de alguns dias recebi um telefonema do Luis Latorre, lojista da Rua General Osório, me perguntando se eu ainda tinha interesse na Montesa, pois ela estava na loja. Fui para lá e realmente logo na entrada da loja havia duas Montesa iguais. Escolhi uma delas, paguei os Cr$ 22 000 e, agora, tinha duas motos, sendo uma trail e outra trial.

Nessa época o Décio Fantozzi, recém-casado, teve sua Honda CB 500 Four roubada de sua casa. Estava sem dinheiro e ia fi car sem moto. Acontece que quando fui comprar a Montesa no Latorre, vi de onde ele tirava os dados da moto e peguei o endereço do revendedor em Santos e o passei ao Décio. O valor que constava na nota fiscal era de apenas Cr$ 8 000. O Décio foi ao revendedor em Santos e acabou comprando uma Montesa igual à minha por Cr$ 14 000, que o comerciante alegava ter sido o preço pago pelo Latorre. Assim eu e o Décio começamos a brincar de trial. Como nada conseguíamos fazer, passamos a nos chamar mutuamente de “pangarés” do trial. O apelido colou no Décio e ficou. Até hoje, entre nós, os Coachman e os Fantozzi, todos somos pangarés, e nossos filhos são os “pangarinhos”.

Carlão (Montesa Cota 247) empresta sua Yamaha DT 250 para Claudio Carmona. Decio Fantozzi (Pangaré), com outra Montesa, na Cidade Universitária, em São Paulo, 1977. Foto acervo Familia Coachman / Motostory

Um dia, ao parar para atravessar a Av. Europa, fui abordado por um rapaz que estava a bordo de uma Velosolex e que me disse que tinha uma Montesa igual à minha e que precisávamos conversar. Dei-lhe meu telefone, endereço de casa e lhe disse que costumava sair todo sábado às sete da manhã com qualquer tempo para fazer trilha. No sábado, estava me preparando para sair quando o tal cara aparece em sua Montesa. Seu nome era Ronnie Kopenhagen Hornet e era entusiasta de motociclismo possuindo uma Harley 1923 militar, duas Vincent (desmontadas), uma BSA 250 e duas Ducati de rua, uma 450 e uma 900 com a mesma pintura, ambas com apenas um documento e que eram usadas normalmente. Por ter morado por anos nos Estados Unidos, o Ronnie tinha praticado
off-road por lá (cross, baja e fl at track) e andava muito bem de moto. Ele costumava fazer coisas com as quais nem sonhávamos. Bastava aparecer um barranco incrivelmente alto ou íngreme para o Ronnie imediatamente tentar escalá-lo ou descer por ele. O Ronnie passou a fazer parte da “Turma do Carlão” e como tinha dentes um pouco salientes e estava sempre aprontando com as motos, vivia com os dentes sujos de poeira de tanto que se divertia com seus aprontos.

Ronnie Hornet Kopenhagen tinha um talento especial para pilotar qualquer coisa de duas rodas. Foto tirada por Flávio Freire na região da Granja Vianna, em São Paulo, 1977.